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Cofres com cadarço: o mercado paralelo dos tênis raros que viraram patrimônio da elite brasileira

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Cofres com cadarço: o mercado paralelo dos tênis raros que viraram patrimônio da elite brasileira

Photo: luxury sneaker collection display room, via i.pinimg.com

Em um apartamento no Itaim Bibi, atrás de uma porta de aço que se parece mais com um cofre bancário do que com um armário, repousam 214 pares de tênis. Nenhum deles já foi usado. A temperatura oscila entre 18 e 20 graus, a umidade é controlada por sensores e cada caixa original foi substituída por embalagens de conservação museológica. O valor estimado da coleção: mais de R$ 4 milhões.

O dono, um empresário do setor de tecnologia que prefere não ter o nome publicado, resume a lógica do hobby com frieza de investidor: "É o único ativo da minha carteira que eu posso admirar todos os dias".

O tênis que vale mais que um carro

O mercado de sneakers de coleção deixou de ser subcultura para se tornar indústria. No exterior, plataformas de leilão e índices financeiros já acompanham a valorização de modelos como se fosrem ações. No Brasil, o movimento ganhou tração própria: grupos fechados de negociação, corretores privados que atuam como traders e uma rede de seguradoras dispostas a apólices específicas para calçados.

Os números impressionam. Um par lançado por R$ 1.200 pode ser revendido por R$ 40 mil em questão de meses, dependendo da colaboração, da escassez e do histórico do modelo. Edições associadas a artistas e franquias esportivas históricas atingem cifras que superam o valor de automóveis de luxo — e, diferente do carro, o tênis tende a se valorizar se permanecer lacrado.

A logística do sigilo

O que poucos imaginam é a infraestrutura por trás dessas coleções. Empresas especializadas em climatização de vinícolas começaram a adaptar projetos para closets de sneakers, com controle de temperatura, filtros contra ozônio e iluminação que não degrada os materiais. A borracha e a cola dos calçados envelhecem; o colecionador sério trata o par como uma obra de arte sensível ao tempo.

A segurança também seguiu o padrão das grandes coleções de arte. Câmeras discretas, sensores de abertura e, em casos extremos, cadeiros-alugados — verdadeiros cofres de guarda compartilhada onde dezenas de colecionadores armazenam seus pares mais valiosos, com inventário digitalizado e seguro incluso.

"Já atendo clientes que guardam o tênis mais caro em casa e os demais em cofre", conta uma corretora de seguros que atende esse nicho. "A apólice precisa prever não só roubo, mas danos por umidade, envelhecimento da cola e até depreciação por caixa danificada. O papel da caixa original vale fortuna."

Corretores, listas e o hype administrado

A camada mais curiosa desse mercado é a intermediação. Assim como negociadores de arte, os corretores de sneakers cultivam relacionamentos com lojistas, funcionários de marcas e revendedores internacionais. Quando um lançamento de edição limitada é anunciado, a disputa começa antes do drop: listas de espera informais, permutas antecipadas e acordos de exclusividade que garantem ao cliente VIP o par que nunca chegará às prateleiras.

O hype, longe de ser espontâneo, é gerido. Influenciadores recebem pares com semanas de antecedência. Quantidades são deliberadamente escassas. E o colecionador de alto poder aquisitivo paga, além do preço do tênis, o preço do acesso — a mesma lógica que rege as mesas impossíveis dos restaurantes mais cobiçados do país.

De hobby a linha da declaração de bens

Contadores e advogados patrimoniais já orientam clientes sobre como declarar coleções de sneakers. Pares avaliados acima de determinados valores podem ser registrados como bens móveis, com laudos de avaliação emitidos por especialistas. Alguns colecionadores estruturam holdings para administrar o acervo, antecipando uma eventual sucessão.

Há ainda quem alugue peças do acervo para editoriais de moda e produções publicitárias — com contratos que especificam que o par não pode ser calçado em cenário externo sem autorização expressa.

O futuro: guarda-volumes de luxo e leilões nacionais

O próximo capítulo já se desenha. Empresas de self storage de alto padrão avaliam dedicar alas climatizadas exclusivas a calçados. Casas de leilão tradicionais estudam leilões dedicados a sneakers na América Latina. E seguradoras desenvolvem produtos cada vez mais sofisticados para um mercado que já movimenta centenas de milhões de reais no Brasil.

Para a elite que coleciona, a equação é simples: raridade, conservação e acesso. O par perfeito não se compra com dinheiro — compra-se com relacionamento, paciência e, cada vez mais, com uma câmara climatizada esperando por ele.

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